“PAI TÁ ON”, MAS ATÉ ONDE? Eleição de 2026 coloca à prova a força política de Dalmora em Matinhos
Urnas de 2026 colocam à prova o capital político do prefeito de Matinhos
Candidatos apoiados pelo prefeito tiveram desempenhos muito diferentes na cidade de 2,8 mil a quase 3,0 mil votos e resultado ajuda a medir os limites da influência do grupo governista
Nas eleições municipais de 2024, Eduardo Dalmora voltou à Prefeitura de Matinhos com 8.671 votos, equivalentes a 37,36% dos votos válidos. Um diferença pequena para o segundo colocado.
Dois anos depois, veio uma oportunidade interessante para medir seu capital político.
Não por meio de pesquisa.
Não por curtidas.
Não pelo tamanho de reunião política.
Mas pelas urnas.
Em 2026, Dalmora esteve politicamente associado a quatro candidaturas importantes: Márcia Huçulak para deputada estadual, Beto Preto para deputado federal, Alexandre Curi para senador e Sandro Alex para governador.
Os quatro tiveram resultados completamente diferentes em Matinhos.
E é justamente aí que a eleição fica interessante.
A régua: os 8.671 votos de Dalmora
Vamos utilizar os 8.671 votos recebidos por Dalmora em 2024 apenas como uma referência do tamanho eleitoral que o próprio prefeito demonstrou possuir.
Não significa que esses 8.671 eleitores constituam uma base fixa.
Em eleições diferentes, com candidatos e cargos diferentes, o eleitor pode votar de maneira completamente independente.
Mas a comparação ajuda a visualizar uma questão política:
os candidatos apoiados pelo prefeito conseguiram atingir um eleitorado do mesmo tamanho daquele que elegeu Dalmora?
O resultado é curioso:
| Candidato apoiado | Cargo | Votos em Matinhos | Comparação com os 8.671 de Dalmora |
|---|---|---|---|
| Márcia Huçulak | Estadual | 2.858 | 33,0% |
| Beto Preto | Federal | 3.076 | 35,5% |
| Alexandre Curi | Senado | 8.435 | 97,3% |
| Sandro Alex | Governador | 10.928 | 126,0% |
Os números revelam praticamente três níveis diferentes de influência eleitoral.
Márcia e Beto: o possível núcleo duro
Os resultados mais interessantes talvez sejam justamente os menores.
Márcia Huçulak recebeu 2.858 votos.
Beto Preto recebeu 3.076.
A diferença entre eles foi de apenas 218 votos.
E ambos foram os mais votados de suas respectivas disputas em Matinhos.
Isso levanta uma hipótese interessante.
Pode existir na cidade um núcleo de aproximadamente 3 mil eleitores altamente receptivos às indicações do grupo político de Dalmora.
Não podemos afirmar que sejam exatamente as mesmas pessoas sem dados individuais que obviamente são secretos.
Mas a proximidade dos resultados chama atenção.
Márcia alcançou o equivalente a 33% da votação de Dalmora em 2024.
Beto, 35,5%.
Em outras palavras:
para cada 100 votos recebidos por Dalmora em 2024, Márcia teve aproximadamente 33 votos em 2026 e Beto, 35.
Isso não significa que Dalmora “transferiu 35% dos votos”.
Mas mostra que o desempenho dos dois ficou em torno de um terço do tamanho da votação pessoal do prefeito.
Pode ser uma pista sobre o tamanho do eleitorado que acompanha mais diretamente as escolhas do grupo governista.
Alexandre Curi chega quase exatamente ao tamanho eleitoral de Dalmora
Com Alexandre Curi, a situação muda radicalmente.
Curi recebeu 8.435 votos em Matinhos.
Dalmora havia recebido 8.671 em 2024.
Diferença:
apenas 236 votos.
Em termos proporcionais, a votação de Curi correspondeu a impressionantes 97,3% do número de votos recebido por Dalmora dois anos antes.
À primeira vista, parece demonstração enorme de força.
Mas existe um detalhe inconveniente.
Curi ficou em terceiro lugar em Matinhos.
Filipe Barros recebeu 8.851 votos.
Deltan Dallagnol, 8.844.
Curi, 8.435.
Ou seja, apesar de alcançar praticamente o tamanho numérico da votação de Dalmora, o candidato apoiado pelo prefeito não conseguiu sequer entrar entre os dois senadores preferidos dos matinheses.
E perdeu o segundo lugar para Deltan por apenas 409 votos.
É talvez o dado mais simbólico da eleição.
Porque não estamos falando de virar centenas de milhares de votos.
Dentro de Matinhos, algumas centenas teriam sido suficientes para colocar Curi à frente de Deltan.
Não aconteceu.
O candidato praticamente reproduziu o tamanho da votação de Dalmora — mas encontrou um teto.
Chegou na porta. A urna não deixou entrar.
Sandro Alex quebra a régua
E então aparece Sandro Alex.
Foram 10.928 votos em Matinhos.
Isso representa 2.257 votos a mais do que Dalmora recebeu para prefeito em 2024.
Ou o equivalente a 126% da votação de Dalmora.
Aqui não existe argumento razoável para dizer que o prefeito fracassou localmente.
Sandro venceu em Matinhos.
E venceu Sergio Moro por mais de 3,4 mil votos.
Mas justamente por ultrapassar tão claramente a votação de Dalmora, o resultado demonstra outra coisa:
esses votos não podem ser atribuídos simplesmente ao prefeito.
Sandro necessariamente conquistou eleitores que não haviam votado em Dalmora em 2024 ou, pelo menos, sua votação foi numericamente muito superior à base que elegeu o prefeito.
Isso é importante porque impede duas interpretações exageradas.
Nem todo voto de Sandro foi “voto de Dalmora”.
Assim como nem todo eleitor de Dalmora necessariamente votou em Sandro.
O que podemos afirmar é que a combinação Sandro + apoio do grupo governista foi muito competitiva em Matinhos.
No Paraná, entretanto, a história foi outra.
Sergio Moro venceu no primeiro turno com cerca de 50,1%, enquanto Sandro terminou com aproximadamente 25,4%.
Matinhos foi, portanto, uma ilha eleitoral favorável a Sandro dentro de um Paraná amplamente favorável a Moro.
Então qual é o verdadeiro tamanho do “dalmorismo”?
Aqui começa a pergunta que 2026 deixou sem resposta.
Seriam aproximadamente 3 mil votos, como sugerem Márcia e Beto?
Seriam os 8,4 mil de Curi?
Provavelmente nenhum desses números isoladamente.
A conclusão mais razoável é que o poder de transferência eleitoral de um prefeito não funciona como um pacote de votos que ele entrega a quem quiser.
Há candidatos mais conhecidos.
Há partidos diferentes.
Há rejeições.
Há campanhas estaduais.
Há voto ideológico.
Há eleitor que gosta de Dalmora, mas não gosta de Curi.
Há eleitor que rejeita Dalmora, mas votou em Sandro.
E existe uma realidade que qualquer grupo político gostaria de esquecer:
eleitor não é patrimônio de político.
O dado mais preocupante para o grupo talvez seja outro
Dalmora recebeu 37,36% dos votos válidos para prefeito em 2024.
Isso foi suficiente para vencer porque a oposição estava dividida.
Esse detalhe será muito mais importante para 2028 do que saber se Márcia recebeu 2.858 ou 3.500 votos.
Porque uma eleição com vários adversários permite vencer com pouco mais de um terço dos votos.
Uma eleição polarizada pode exigir praticamente metade.
É aí que 2026 produz um sinal de alerta.
Os resultados mostram que Dalmora possui capacidade de mobilização e que seus aliados podem ser muito competitivos em Matinhos.
Mas não mostram a existência de uma maioria eleitoral automaticamente obediente ao prefeito.
Muito pelo contrário.
O eleitorado demonstrou capacidade de separar as escolhas.
Votou em Sandro e não necessariamente em Márcia.
Votou em Beto e não necessariamente em Curi.
Votou em Dalmora em 2024 e pode ter ignorado todos eles em 2026.
Isso torna qualquer projeto de sucessão mais complicado.
A pergunta para 2028
Dalmora não poderá simplesmente colocar seus 8.671 votos de 2024 numa sacola e entregar ao candidato que escolher para sucedê-lo.
Essa talvez seja a principal lição política das urnas.
Prefeito possui influência.
Possui aliados.
Possui visibilidade.
Possui capacidade de articulação.
Mas voto continua pertencendo ao eleitor.
E quando chegar 2028, a verdadeira prova não será descobrir se o prefeito consegue pedir votos para um deputado ou governador.
Será descobrir se consegue fazer algo historicamente muito mais difícil:
transferir seu próprio capital político para outra eleição municipal.
Porque 2026 mostrou que o “Pai tá On” ainda tem sinal.
A questão é:
quantas barrinhas? 📶
Se Márcia e Beto forem utilizados como referência, talvez três mil eleitores estejam na área de cobertura mais fiel.
Se Curi for a referência, o sinal chega perto dos 8,5 mil.
Mas há um pequeno problema para quem pretende transformar isso em certeza eleitoral:
o eleitor de Matinhos aparentemente escolhe a própria operadora.
E pode trocar de sinal a cada eleição.
2026 não desligou Dalmora. Mas mostrou onde o Wi-Fi falha.
Essa talvez seja a conclusão mais justa.
Não houve um colapso eleitoral do grupo governista em Matinhos. Os números não permitem afirmar isso.
Houve, sim, demonstração de força local.
Mas também apareceu claramente o limite dessa força.
Dalmora conseguiu ajudar aliados a liderarem disputas na cidade.
Não conseguiu transformar três dessas quatro candidaturas em vitória no Paraná.
E, principalmente, 2026 mostrou que apoio político não é procuração eleitoral.
Para um prefeito que gosta de avisar que:
“O Pai tá On”...
as urnas responderam:
“Tá. Mas não é Wi-Fi automático.” 😂📶
