Renovação e o fim da velha política: o verdadeiro recado das urnas em Matinhos
Na política de Matinhos, aparentemente, já existe uma nova modalidade de vitória: escolher os números favoráveis, esconder os resultados inconvenientes e anunciar que a oposição está com febre. É a apuração com filtro de beleza.
A publicação de uma página de apoiadores da atual gestão de Matinhos celebra os 3.169 votos de Beto Preto e os 2.949 de Márcia Huçulak como demonstração de força de Eduardo Dalmora. Os candidatos realmente lideraram suas respectivas disputas no município. Mas há um detalhe que estraga o confete: Beto Preto foi eleito; Márcia ficou suplente. Liderar em Matinhos e conquistar uma cadeira são coisas diferentes.
O balanço também precisa incluir os outros apoios do prefeito. Dalmora participou do palanque de Sandro Alex e integrou a relação de prefeitos apoiadores de Alexandre Curi. Nenhum dos dois conquistou o cargo disputado: o Paraná elegeu Sérgio Moro governador, Filipe Barros e Deltan Dallagnol senadores. Entre Beto, Márcia, Sandro e Curi, portanto, apenas Beto saiu eleito. Para uma campanha apresentada como demonstração de força, o placar exige bastante entusiasmo da assessoria.
O texto governista propõe excluir governador e senador porque os apoios estavam “misturados”. Mas transferir votos para deputados também envolve partidos, trajetória dos candidatos, campanhas próprias e outras lideranças. Se essas variáveis impedem atribuir uma derrota ao prefeito, também impedem entregar a ele, sozinho, o certificado de uma vitória.
Não dá para privatizar o mérito e terceirizar o fracasso.
Há ainda uma diferença entre liderança e domínio eleitoral. Beto recebeu 14,07% dos votos válidos para federal em Matinhos; Márcia, 13,09% para estadual. Foram os primeiros colocados, mas estiveram longe de reunir a maioria dos votos desses cargos. E os dois resultados não podem ser somados como se representassem eleitores diferentes: uma mesma pessoa pode ter votado em ambos.
Com a visibilidade e a capacidade de articulação de quem ocupa a Prefeitura, obter cerca de três mil votos para cada candidato permite comemorar liderança local. Transformar isso em procuração antecipada para 2028 já é outro departamento: o da propaganda.
A contradição partidária também merece espaço. Eleito prefeito pelo PL, Dalmora apareceu no palanque de Sandro Alex, adversário do candidato do PL, Sérgio Moro. A escolha pode ter explicações de aliança, mas cobra um preço de coerência: qual compromisso orienta o prefeito quando a legenda aponta para um lado e a conveniência política para outro?
Quem exige fidelidade dos próprios aliados precisa explicar a própria flexibilidade. Confiança não se recupera com fotografia de palanque nem com legenda triunfalista.
Quanto aos comissionados, a questão é a consistência da base política. Se parte relevante da mobilização depende de nomeações, mudanças na equipe podem enfraquecê-la. Isso é um risco a observar, não uma certeza sobre cada servidor. Apoio duradouro é aquele que continua de pé quando termina o cargo.
A comparação entre os candidatos também acrescenta uma dimensão geracional à disputa. Felipe Francischini, apoiado por Rodrigo Gregório, foi eleito deputado federal e tem 35 anos. Denian Couto, apoiado pelo ex-prefeito Zé da Ecler, foi eleito deputado estadual e tem 52 anos. Ambos são mais novos que Beto Preto, de 58 anos, e Márcia Huçulak, de 64 anos, os nomes defendidos por Dalmora.
O contraste político incomoda a narrativa governista: os dois candidatos apoiados por essas lideranças da oposição conquistaram suas cadeiras, enquanto, entre os dois deputados promovidos pelo prefeito, apenas Beto Preto foi eleito. A turma do “recorde” ganhou o ranking municipal; seus adversários também ganharam mandato.
Tudo indica que políticos tem prazo de validade. O que abre espaço para discutir renovação de nomes, práticas e prioridades. Estar há anos representando a velha política precisa significar mais resultados não apenas mais habilidade para repetir promessas e transformar qualquer placar em vitória.
Para 2028, Dalmora terá de enfrentar essa cobrança. A oposição poderá explorar o contraste entre continuidade e mudança, desde que apresente propostas concretas. Porque o eleitor pode até ouvir novamente a mesma promessa, mas a Prefeitura não deveria contar com memória curta como plano de governo.
O prefeito precisará demonstrar que sua força ultrapassa o círculo de aliados e resiste à avaliação da própria gestão. Os resultados de 2026 alimentam essa disputa, mas não antecipam seu vencedor muito menos autorizam uma conclusão única sobre o eleitorado de todo o Brasil.
A publicação encerra dizendo que os derrotados devem estar com febre. Convém conferir o aparelho: termômetro que só registra os números favoráveis ao prefeito mede propaganda, não temperatura política.
Em 2028, a pergunta será mais difícil que “quantos votos fizeram meus deputados?”. Será: o que a Prefeitura entregou à população?
E para essa resposta não existe filtro que substitua resultado.
